O que você quer espelho? Nada posso te dar sem que antes eu me dê. Talvez esse fato seja extremamente positivo para nós. Afinal, se eu quiser te dar um presente de aniversário você também vai me dar. No mesmo dia aliás. Iriamos olhar um para o outro e rir da extrema coincidência. Fazemos aniversário na mesma data, quando vestimos uma roupa nova o outro também veste, quando resolvermos durmir o outro também aparenta estar com sono.
O ruim é ter que encarar essa pessoa nos momentos difíceis da vida. Mesmo que quando um sorri o outro também se empolga e dá até gargalhadas, nos momentos tristes não sei qual é o primeiro que chora, pois os dois se enchem de pranto coordenadamente, Quando digo que essa pessoa está sempre se encontrando com você, eu não estou brincando. Quando eu acordo, o outro que dormia perto do armário do quarto também está se levantando, como se me observasse minutos antes de eu acordar para mostrar sua capacidade de sicronia. Mas tentando escapar vou ao banheiro e fecho a porta para que ele não entre. É inútil. Ele está na minha frente e não sei por onde ele entrou mais o fato é que ele está lá. Faz uma cara de assustado, mas coitado! Quem deveria estar assustado era eu, afinal não fui eu que acordei primeiro e não fui eu que primeiro entrei no banheiro?
Um amigo meu disse que não aguentaria uma pessoa que te persegue sempre. Sua palavras foram: "Cara, se eu fosse você acabava logo com essa história e dasse um chega pra lá nesse inoportuno".
No fundo, no fundo eu já tinha me acostumado com aquele ser que nunca me falara o nome, sempre com sua mania de me imitar. Antes eu achava essa mania irritante, mas como ele imitava com uma excelência única eu não deixava de admirá-lo.
Uma vez eu fui convidado para um parque de diversões, daqueles que há montanha-russa, elevadores daqueles que caem de torres aranha-céus. Nesse parque também havia uma parte chamado "labirinto dos espelhos". Quando entrei logo vi que meu agora amigo, meio irmão gêmeo, já caminhava para entrar do outro lado. Após caminhar um pouco no que deveria ser um labirinto vi vários irmãos desse meu amigo. descobri que ele tinha uma família bem grande e, curiosamente, de gente muito parecida com ele. "Não sabia que sua família morava aqui" - perguntei pra ele - mas agora não apenas ele imitou o que eu falava mas também todos os seus irmãos. Vi que o talento
de previsão e imitação era mesmo de família.
Iria perguntar para ele se todos eram filhos de um mesmo pai, mas eu desisti, pois eu já imaginaria o que ia acontencer quando abrisse a boca.
Um dia desses eu fiquei encucado com uma hipótese que criei. Será que realmente ele consegue prever o que eu penso ou se, talvez, fosse eu que prevesse as ações dele e suas falas?
Num dia qualquer do último verão, querendo testar se eu conseguiria ou não prever seus atos, fiz um teste. Olhei para o espelho do banheiro e encarei ele. Olhei bem fundo nos seus olhos e pensei numa palavra bem difíssil que ele talvez ainda nem tenha ouvido falar. Busquei meus conhecimentos de alemão, língua que não é tão comum como inglês no Brasil, e me preparei para dizer e, se eu dissese primeiro, seria ele que iria prever, mas se fosse eu o primeiro, na verdade, fui eu que previ.
A palavra era "Nachahmer", que significa imitador. Olhei mais uma vez para ele e disse o mais rápido que pude. - "Nachahmer"
Não é que ele conseguiu falar no mesmo momento que eu. Ele previra não apenas o que eu falaria, mas também no instante que falaria e conseguiu também falar na mesma velocidade que eu.
Fiquei tão impressionado com o talento desse meu gêmeo que tive uma nova idéia para testá-lo. Peguei meu gravador e gravei a palavra imitador em alemão enquanto olhava denovo o fantástico talento dele. Depois coloquei a mídia no computador e me levantei rapidamente depois de ler o que estava na tela.
Dizia: "uma voz". Como assim uma voz? Eu vi que ele abria a boca no mesmo instante que eu e eu escutava também, mas pode ser que o computador esteje certo porque eu não houvia mais de uma voz quando falava de frente ao meu gêmeo. Mas eu perguntei o meu professor de violão para saber se o computador estava errado, ou era eu. Ele me disse que o computador não está errado, mas também não está totalmente certo. Não entendi nada e pedi para que ele tentasse explicar denovo. Disse que em teoria tudo isso era muito simples, ele conseguira fazer a mesma entonação da minha voz e o mesmo ritmo que eu e que por isso teria confundido o computador.
A explicação parecia bastante racional, mas eu ainda não tinha compreendido muito bem como ele tinha tirado tanto talento. Deveria ser bruxo, mas logo descartei essa possibilidade porque se realmente fosse não iria querer me imitar, mas viver a própria vida, sair por ai, viajar bastante e se divertir.
Como hoje sei que tudo que eu fizer para ele também estarei fazendo para ele tento tratar muito bem o meu amigo. Como? Tratando primeiro de mim, afinal não dá tudo no mesmo no final?
